sexta-feira, 4 de junho de 2010


Odes de
Ricardo Reis

    Vem sentar-te comigo Lídia, à beira do rio.
    Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
    Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.

    (Enlacemos as mãos.)

    Depois pensemos, crianças adultas, que a vida
    Passa e não fica, nada deixa e nunca regressa,
    Vai para um mar muito longe, para ao pé do Fado,

    Mais longe que os deuses.

    Desenlacemos as mãos, porque não vale a pena cansarmo-nos.
    Quer gozemos, quer nao gozemos, passamos como o rio.
    Mais vale saber passar silenciosamente

    E sem desassosegos grandes.

    Sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz,
    Nem invejas que dão movimento demais aos olhos,
    Nem cuidados, porque se os tivesse o rio sempre correria,

    E sempre iria ter ao mar.

    Amemo-nos tranquilamente, pensando que podiamos,
    Se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias,
    Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro

    Ouvindo correr o rio e vendo-o.

    Colhamos flores, pega tu nelas e deixa-as
    No colo, e que o seu perfume suavize o momento -
    Este momento em que sossegadamente nao cremos em nada,

    Pagãos inocentes da decadência.

    Ao menos, se for sombra antes, lembrar-te-as de mim depois
    Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova,
    Porque nunca enlaçamos as mãos, nem nos beijamos

    Nem fomos mais do que crianças.

    E se antes do que eu levares o óbolo ao barqueiro sombrio,
    Eu nada terei que sofrer ao lembrar-me de ti.
    Ser-me-ás suave à memória lembrando-te assim - à beira-rio,

    Pagã triste e com flores no regaço.

    Ricardo Reis, 12-6-1914

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